ÁFRICA-MUNDOS

2004

O projeto transdisciplinar ÁFRICA-MUNDOS Resistências Contemporâneas procurou dar visibilidade às complexas posturas culturais e críticas da África contemporânea

ÁFRICA-MUNDOS Resistências Contemporâneas constituiu uma plataforma para a produção cultural de origem africana, re/ativando redes de pesquisadores, criadores, escritores e agentes sociais. Este projeto tentou rever os modos estabelecidos de interpretação da sociedade africana e buscou formas atuais de apresentação de uma produção contemporânea herdeira do discurso crítico dos grandes movimentos de independência (pan-africanismo, negritude, Black Power, consciência negra, nacionalismo africano, afrocentrismo). O projeto se estabeleceu como uma tentativa inovadora, procurando apresentar e discutir no Brasil a cultura e o contexto social africanos contemporâneos, colocando-os em perspectivas com os debates atuais e questões sobre a identidade afro-brasileira e as diferentes formas de militância.

•ÁFRICA-MUNDOS Residências Contemporâneas• foi idealizado para uma duração de dois anos (2004-2006), como processo contínuo pontuado por momentos de visibilidade. Cada bloco do projeto articular-se-ia em torno de uma figura-chave, uma temática ou um campo de pesquisa: encontros, publicações e residências seriam desenvolvidos, permitindo o compartilhamento de conhecimentos, assim como a expressão de modos de resistências e de discursos críticos. A exo documentaria as etapas do projeto com vários formatos editoriais e multimídia, alimentando um arquivo acumulativo.

A presença do percussionista Tony Allen no Brasil, em junho de 2004, marcou o lançamento do bloco/1 Fela Anikulapo Kuti, entre cultura e ativismo - Resistências Contemporâneas Africanas, com dois concertos de Tony Allen & band em São Paulo no Fórum Cultural Mundial - SESC Itaquera e na Mostra SESC de Artes no SESC Pompéia. Tony Allen é um dos maiores percussionistas do planeta, e é reverenciado como o homem que criou, junto com o músico nigeriano Fela Anikulapo Kuti (Fela Kuti),, uma das músicas mais significativas do século XX: o afrobeat, com seus ritmos únicos, super-funky e contagiantes. Tony Allen & band apresentaram a turnê do disco Home Cooking.

A residência do autor e jornalista Nigeriano Eyitayo Aloh em Salvador e São Paulo em novembro e dezembro de 2004, constituiu sua segunda etapa. Durante sua estadia no Brasil, Eyitayo Aloh contribuiu para o projeto através de uma análise crítica da obra e da filosofia de Fela Kuti.

Uma série de palestras/encontros, oficinas e projeção de filme foram realizadas com diversos públicos nas cidades de Salvador e São Paulo, examinando duas dimensões fundamentais de Fela Kuti: como oponente social e político nigeriano e criador do estilo musical afrobeat.

Tayo abordou a filosofia de Fela Anikulapo Kuti baseada em sua música, explorando suas letras, a representação do discurso de oposição à opressão, da campanha contra os vícios sociais e da emancipação das massas, apontando a relevância da “música como arma” em uma sociedade opressiva, em experiências intercambiadas brasileira e nigeriana. Algumas de suas canções foram cantadas com as crianças e educadores em oficinas em Salvador no intuito de buscar uma re-conexão com suas raízes Africanas, baseado nos valores aos quais Fela direcionou fortemente algumas de suas canções, (a música de Fela, de certa forma, foi influenciada por cantos populares tradicionais). Em ambas as cidades, Tayo discutiu também o Shrine: lugar de convivência e de formação política fundado por Fela e baseado nos valores aos quais ele direcionou fortemente algumas de suas canções, espaço de concerto à noite e centro sócio-cultural durante o dia. Templo da democracia e verdadeiro espaço público africano.

Fela Anikulapo Kuti, entre cultura e ativismo - Resistências Contemporâneas Africanas foi realizado com apoios, parcerias e colaborações importantes, com a co-concepção e coordenação artística de Anne Sobotta, participações de Eugenio Lima, Luanda Castella, Luca Baldovino, Carlos Moore, Eyitayo Aloh, dentre outros, e instituições como Prince Claus Fund (Holanda), Instituto Polis São Paulo, programa Coisa Fina/Galeria Olido - São Paulo, Universidade Federal da Bahia - Escola de Dança, Fundação Cultural Palmares- Salvador, CEAO- Centro de Estudos Afro-Orientais, Terreiro da Casa Branca – Ilê Axé Iyá Nassô Oká, Ilê Aiyê- Centro Cultural Senzala do Barro Preto – Salvador; Consulado Geral da França em São Paulo, Forum Cultural Mundial e SESC São Paulo, dentre outros.

Fela Anikulapo Kuti: Dissidente social e político nigeriano, criador do afrobeat

A música e a “prédica” de Fela são um chamado constante aos povos africanos do mundo para enfrentarem o desafio de redesenhar o mundo. Porém, esta tarefa só pode ser feita se libertando da alienação racial e das superstições coloniais à respeito da inferioridade negra. E, como Fela rejeitava a categoria herdada eurocolonial de “estado nação”, ele também defendia uma ressurreição dos princípios de governo e de nação pré-europeus, pré-cristãos e pré-islâmicos. Ele considerava estas estruturas africanas pré-coloniais como a verdadeira essência da africanidade.

Em termos políticos e sociais, Fela colocou para rediscussão muitas questões fundamentais que não desaparecerão, como a necessidade de renovar o pacto social entre os gêneros, a obsolescência do chamado Estado moderno e a transição das reivindicações pela “igualdade” para a afirmação da eqüidade por parte dos povos historicamente oprimidos e marginalizados. De fato, esta ideologia não foi sempre claramente formulada. Mas, mesmo na forma desarticulada e, às vezes, contraditória da sua expressão, foi suficientemente potente e sincera para elevar o seu autor à categoria de um importante pensador político. Ele deixou um amplo legado de reivindicações, derivadas de um volumoso conjunto de ideias polêmicas, inseridas em formulações caóticas e, às vezes, descontentes e veementes. Certamente, uma pesquisa interdisciplinar seria necessária para desemaranhar os mil e um fios do homem, músico, dissidente político, reformador social e anarquista, que viveu e morreu exclusivamente conforme as suas próprias leis.

Carlos Moore
Autor de Felá, Felá. This bitch of a life