ÁFRICA-MUNDOS

2004

África Mundos - Resistências Contemporâneas

Marta Mestre

2013

África Mundos - Resistências Contemporâneas é um projeto da plataforma exo-experimental org. iniciada em 2004, que propôs uma ousada grelha de “blocos de atividades transdisciplinares de longa duração, tais como festivais de cinema, seminários, edições, residências de autores, entre várias outras”. Ainda que não se tenham cumprido a maioria das etapas previstas - da proposta inicial realizaram-se somente shows de Tony Allen, em São Paulo e a residência com o autor nigeriano Eytayo Aloh, em Salvador e em São Paulo –, foi importante para situar uma agenda em torno da figura de Fela Kuti, nome lendário do afrobeat e inspiração política do ativismo.

Zombie © Ghariokwu Lemi

O objetivo central do projeto foi estreitar relações entre as figuras centrais do pensamento contemporâneo africano e brasileiro, por via dos movimentos libertários do período da descolonização, o pan-africanismo, negritute, Black Power, entre outros, fundadores de uma vivencia pós-colonial não só no continente africano, mas também na diáspora global.

África Mundos - Resistências Contemporâneas considerou a relação descontínua e a generalizada ignorância que ainda prevalece entre o Brasil e a África. Como sabemos, apesar da relação histórica entre os dois lados do Atlântico sul, os modelos sucessivos de economia colonial só contribuíram para criar um fosso cada vez maior. Este desconhecimento deve-se a inúmeros fatores que não são passíveis de serem sumariamente elencados, e têm uma evolução histórica que gradualmente os complexifica. Porém, é ao nível do plano da representação que o mundo ocidental viu (e continua a ver) “África”, como um território desprovido de humanidade, imagem agravada pelos sucessivos séculos de delapidação material e simbólica, que desemboca hoje em formas de neocolonialismo, mascaradas de ajuda humanitária.

É preciso referir que o desconhecimento das ideias dos movimentos libertários e sua reverberação no mundo contemporâneo, não é realidade somente fora de África. Se tivermos em conta que seis em cada dez africanos têm menos de vinte e cinco anos, deduzimos que nasceram após o apartheid, que não vivenciaram a guerra civil e que terão ouvido os acontecimentos na segunda ou terceira pessoa.

É, portanto, a partir deste capítulo de desvinculação colonial tão “desconhecido” quanto contundente, da longa primavera da África (por relação aos acontecimentos políticos recentes no Oriente Médio), e de um novo pensamento ideológico e cultural (o exemplo da “pedagogia da revolução” de Amílcar Cabral, nas palavras de Paulo Freire), que as responsáveis – Ligia Nobre e Cécile Zoonens – pela plataforma exo experimental org., em colaboração com Anne Sobotta, “imaginaram” uma aproximação renovada e necessária.

AFRICA-MUNDOS bloco/1 Fela Anikulapo Kuti: entre cultura e ativismo, no espaço da exo na rua Bela Cintra, São Paulo, 2004. Foto: exo

Mas qual a importância contemporânea desta aproximação? O que alimenta esta necessidade hoje, em que o Brasil se assume como uma potência no mundo? O que existe para além da histórica descendência afro, de milhões de brasileiros?

São muitas as respostas, mas talvez possamos dizer que, a contrapelo da expansão global, assistimos à retomada de laços entretanto quebrados, mas fundamentais na formulação da “identidade inacabada” (Stuart Hall) caraterística do nosso mundo contemporâneo. À fragmentação e descontinuidade do momento atual, e ao apagamento das noções de periferia e centro, estamos a responder com a redescoberta das particularidades, a busca das diferenças, dos localismos. Em um cenário como o brasileiro, onde ocorrem bruscas mudanças provocadas pelas novas estruturas sociais, o conceito de Hall tem uma expressiva ressonância.

É interessante pontuar o espectro de adjetivações que “organizam” o Brasil enquanto espaço mental coletivo. Desde a ideia de um país “continental”, onde “o Brasil são muitos brasis”, até à reivindicação de identidades circunscritas (afrodescendente, indígena, etc.). Como refere o crítico Paulo Emílio Salles Gomes a propósito do singular ambiente identitário do Brasil, a “dialética rarefeita entre o não ser e o ser outro”.

Assim, a partir da noção de identidade “inacabada”, ou “em processo”, lançamos três ideias-chave para futuros desdobramentos do projeto exo experimental.org, tendo em conta a sua natureza de rede virtual:

  • Arquivo aberto. Dar conta do amplo espectro das posições históricas e críticas formuladas sobre África, por africanos e não-africanos, por meio da criação de um banco de dados que refira os diversos lugares de enunciação deste pensamento. Proporcionar um acesso privilegiado aos textos fundamentais dos ativistas dos anos sessenta e dos pensadores atuais (economistas como Céléstin Monga, escritores como Binyavanga Wainaina, Ruy Duarte de Carvalho, Luandino Vieira, cientistas sociais tais como Achille Mbembe, Ruth Simbao, Manthia Diawara, curadores como Stina Edblom, Paul Goodwin, Okwui Enwezor, Bisi Silva, artistas como Zanele Muholi, Nicolas Lhobo, Pascale Marthine Tayou, William Kentridge, Yto Barrada, Ângela Ferreira, entre muitos outros) promovendo uma ideia de arquivo como “um sistema geral de formação e transformação de discursos” (Agamben);

  • Criticismo. Problematizar a noção de “afrodescendente” como parte do processo de “identidade imaginada”, no contexto do ativismo pela recuperação das identidades originárias, perdidas, ou ameaçadas (indígenas, regionais, etc), em particular nas redes da internet. No limite, “somos todos africanos”, “somos todos judeus alemães”, “somos todos guarani-kaiowá”. Ou seja, procuramos inscrever nossa identidade numa condição para além dos limites do pós-colonial (fora da modernidade). É sobre estes novos discursos identitários, mas onde ainda persistem os dispositivos do capitalismo, que devemos procurar criticamente um novo sujeito, a que alguns chamam de criolo universal, embora ameaçado pela indiferença recíproca entre processos de subjetivação e processos de dessubjetivação (Agamben, 2009, 47).

  • Espaço público. Sabemos que é pouco, mas não sabemos o espaço real que ocupam as culturas africana, afro-descendente, da diáspora na esfera da cultura brasileira. Se sairmos do atavismo das políticas do Estado brasileiro para a sua valorização e salvaguarda, deparamo-nos com um vazio a este nível. Em especial a sua contribuição nas culturas urbanas das principais cidades do país. Cabe aqui questionar de que forma elas (re)desenham a evolução atual das cidades brasileiras e a vivência cosmopolita urbana? De que forma inscrevem um tipo de “urbanismo” pode ser lido no tecido social e cultural da sociedade, engajando os cidadãos na construção coletiva da alteridade e da diferença?

África Mundos - Resistências Contemporâneas é um projeto que ainda poderá contribuir para adensar criticamente o modo de pensarmos a hierarquia racial (e cultural) no Brasil, e que poderá também encurtar as distâncias e os impasses que persistem. Pondo de lado, assim, os lugares comuns e o desconhecimento.

No Agreement © Ghariokwu Lemi

Marta Mestre é curadora e pesquisadora. Vive e trabalha no Rio de Janeiro.

© 2013 arquivo exo e a autora