[PRÁTICAS DOCUMENTÁRIAS]

2003

O projeto [práticas documentárias] teve como objetivo ativar a reflexão em torno das estratégias documentárias no Brasil por meio de encontros, discussões e projeções.

Recuperar imagens de arquivos; realizar entrevistas com diferentes personalidades vinculadas às imagens; criar uma narração polifônica de uma realidade vivida – certamente é possível reconhecer estes elementos como uma fórmula básica no desenvolvimento de um filme documentário. Mas de que modo tal realidade (re)apresentada nos afeta e posiciona? De que modo ela é real? Aí estaria uma questão chave para o projeto [práticas documentárias], que, nas palavras do crítico e consultor do projeto Jean-Claude Bernardet, buscava “perceber os sinais de uma renovação no trânsito entre arte e realidade de encontrar atitudes artísticas [e, de fato, políticas] que modifiquem a nossa relação com o real e, por isso, redescubram-no ou descubram outras realidades”.

Em 1996 é criado no Brasil o festival É tudo verdade/ It’s all true e logo no começo dos anos 2000 alguns filmes documentários em especial entraram no grande circuito, entre eles Edifício Master (Eduardo Coutinho, 2002), Ônibus 174 (de José Padilha, 2002) e Entreatos (João Moreira Sales, 2004). Enquanto isso vimos o surgimento de práticas que vinham na contramão da narração documentária, sem necessariamente abordar o gênero.

Neste sentido, uma das principais ações de [práticas documentárias] foi a exposição a respeito de SITUAÇÕES REAIS (Paço das Artes, São Paulo 29/04 a 01/06, 2003), pensada e elaborada a partir da exposição [based upon] TRUE STORIES – produzida e organizada por Witte de With,Centro de Arte Contemporânea em colaboração com o Festival Internacional de Documentários de Marselha e FID – Festival Internacional de Documentários em Marselha e International Film Festival Rotterdam (Roderdã 24/01 a 30/03, 2003) –, que reuniu curtas e longas-metragens, instalações e fotografias com curadoria de Catherine David e Jean-Pierre Rehm. Em a respeito de SITUAÇÕES REAIS foram apresentados os trabalhos dos artistas e cineastas que optam pelo documentário que relaciona a arte e o real, produz narrações e constitui de modo incontestável uma das ferramentas de reflexão política: Chantal Akerman, Pedro Costa, Alejandra Riera, Efrat Shvily, Jean-Luc Moulène, Danièle Vallet Kleiner e Peter Friedl. Para a exposição em São Paulo, convidamos especialmente The Atlas Group / Walid Raad, além da cineasta Tata Amaral para um diálogo com o trabalho de Alejandra Riera. Acompanhando a exposição uma publicação foi co-editada com o Paço das Artes, incluindo textos inéditos dos/sobre os artistas convidados. A mesa redonda (30/04, 2003), coordenada por Bernardet no âmbito da exposição a respeito de SITUAÇÕES REAIS, reuniu os artistas e cineastas Lucas Bambozzi, Thiago Villas Boas e Kiko Goifman, e a curadora Catherine David, sobre estratégias documentárias no Brasil.

Efrat Shvily, Sem título, 1992-1998
Série Novas Casas em Israel e Territórios Ocupados