TRAJETÓRIAS URBANAS

2002-2007

Como um caleidoscópio de histórias, narrativas, representações, temporalidades e espacialidade distintas, os percursos e trajetos urbanos são uma ferramenta chave capaz de operar um método de pensar e experimentar a cidade.

Se as cidades são espaços privilegiados da experiência contemporânea, essas não são nunca universais, mas sim específicas e distintas conforme a situação social e geopolítica dos sujeitos sociais. Essas dinâmicas e especificidades marcaram as experiências e atuações da exo e dos artistas-autores envolvidos nos projetos-investigações e residências.

Para além de mapas, estatísticas e dados, como é possível operar um pensamento da cidade? A investigação dos modos de representação implicou em aproximações panorâmicas, assim como das subjetividades e micro-fenomenologias, por percursos e trajetos urbanos, levando mais em conta o indivíduo, uma política do próximo e os heterogêneos modos de habitar esses territórios. Detectar as zonas de conflito e de tensões, analisar os espaços de mutação na cidade, acompanhando as políticas urbanas e suas estratégias, elaborar um registro alternativo de olhares e de proposições para uma releitura do território urbano, em suas diversas dimensões.

As trajetórias urbanas são pontuadas por situações, que podem ser vistas como espaços de condensações de práticas, mediações e mediadores que armam como que microcenas decritivas em que esses processos são flagrados. ––Vera da Silva Telles, in Nas tramas da cidade

Os projetos e investigações de práticas estéticas e urbanas – iniciados no âmbito dos projetos da exo, assim como por artistas e autores convidados – constituem e engajam trajetórias urbanas e sociais que atravessam territórios e temporalidades distintas da metrópole, revelando algumas de suas múltiplas faces e dinâmicas.

Estratégias de territorialização na metrópole de São Paulo (2004-2006)

série de imagens de George Dupin (artista, França)
diretrizes e texto de Kazuo Nakano (urbanista, São Paulo)
diálogo com Sylvaine Bulle (socióloga urbana, França)

As séries de imagens de George Dupin atravessam São Paulo no sentido oeste–leste (2003-2005), passando pelas novas centralidades financeiras da região da avenida Berrini, marginal Pinheiros e avenida Faria Lima; o bairro residencial Morumbi e os contrastes com as favelas vizinhas; os interiores de butiques de luxo de grifes nacionais e internacionais no quadrante rico da rua Oscar Freire; o parque Ibirapuera (e o edifício da Fundação Bienal São Paulo) e o edifício Copan como ícones da modernidade almejada pelo capital industrial e centralidades nos anos 1950. Atravessaram uma ocupação do MST em um terreno cedido à Volkswagen, ocioso há décadas, localizado em São Bernardo do Campo – berço da industrialização e dos movimentos metalúrgicos na década de 1980. Acompanham os modos de morar de uma das maiores e mais antigas favelas de São Paulo e associações locais de catadores de lixo. Particularmente, o processo de remoção pelo governo estadual de parte dos moradores da favela Vila Prudente (região central), deslocados para mais de 30 km de distância na extrema zona leste, no novo conjunto habitacional Jardim Iguatemi; e as configurações territoriais em Cidade Tiradentes, as lajes das autoconstruções, assim como os conjuntos de mutirões autogeridos da época da prefeita Erundina nos anos 1990. As investigações do urbanista Kazuo Nakano focam em agenciamentos concretos nos processos de disputas sócio-territoriais, especialmente nas migrações intra-urbanas, guiando esses percursos conjuntos pela metrópole e as negociações entre o artista, o urbanista e a exo, além do diálogo com a pesquisadora Sylvaine Bulle, e os múltiplos sujeitos sociais implicados.

George Dupin [Cidade Tiradentes, São Paulo], São Paulo S.A. 2005

São Paulo: entre utopia e sonho (2004-2007)

série de imagens e filmes por Paola Salerno (artista, Itália/França)

Articulação de uma série de imagens e vídeos, focando em possíveis narrativas, múltiplas escalas e experiências da “condição urbana”, conectando micro-fenomenologias com macroprocessos. Três principais situações territoriais-temporais se entrecruzam: a “urbanização periférica” do Jardim São Luis na zona sul – na fronteira de uma área ex-fordista industrial, uma nova “cidade global” e favelas; a área do centro histórico; e os condôminos fechados de Alphaville e Tamboré no subúrbio oeste da cidade, que surgiram nos anos 1970 e se multiplicaram a partir dos anos 1990, marcados por um discurso de status e violência.

Paola Salerno [Alphaville] São Paulo S.A. 2005

Trabalhando no Copan/Working at Copan (2005-2007)

Publicação/obra de Peter Friedl (artista, Áustria/Alemanha)

Trabalhando no Copan reúne entrevistas com os trabalhadores e funcionários do edifício Copan. Neste projeto-livro, Peter Friedl, artista baseado em Berlim, trata dos restos de trabalho deixados pela era moderna. As perguntas e respostas se concentram na lógica do trabalho executado, no processo de trabalho, na relação entre trabalho e lazer, detalhes biográficos, memórias e planos de futuro.

capa do livro/projeto de Peter Friedl, Trabalhando no Copan/Working at Copan. Stenberg Press:,Berlim/NY, 2007.

Guia do Copan (2002/2006)

Publicação/revista de Pablo León de la Barra (artista México/Inglaterra)
e ação-lançamento CopaCopan day

Publicação-investigação do edifício Copan e de seus documentos históricos. Em 6 de outubro 2006, Pablo Internacional Magazine e exo experimental org. realizaram o evento CopaCopan day, com um percurso pelo edifício com o síndico, pôr-do-sol no terraço e pizza para o lançamento do Guia do Copan, que ficou à venda no Café Floresta, Pizzaria Copan e na Administração do ed. Copan (edição esgotada).

Pablo León de la Barra, Guia do Copan, São Paulo S.A. 2006

Sonho da Casa Própria/ Procura-se José Ivanildo (2006)

série de fotos e vídeo por Pablo León de la Barra (artista México/Inglaterra)

O vídeo, imagem e textos Procura-se José Ivanildo explora Brasília como plataforma para a existência e o desenvolvimento de modernidades “extra-oficiais”. José Ivanildo é deficiente físico. Também era sem-teto. Como presente, recebeu um terreno de 6 x 30 metros na quadra 486, lote 03, setor central Céu Azul, em Nova Gama, com a condição de ele pedir dinheiro ao governo para construir sua casa. José Ivanildo riu: sabia que demoraria anos para receber qualquer coisa do governo, de forma que decidiu pedir o dinheiro diretamente ao povo. Em janeiro de 2001, instalou-se entre os camelôs no viaduto entre os shoppings CONIC, sobre a rodoviária, em Brasília. Equipado com cadeira de rodas, um microfone, um cartaz, um cofrinho, uma camiseta e fotos e documentos como prova, começou a pedir dinheiro para construir a sua casa. As estratégias de José Ivanildo para ocupar o espaço público e financiar suas necessidades são paradigmáticas das novas táticas de self-empowerment e da realidade da construção de então. Em 2005, Pablo León de la Barra voltou para Brasília em busca de José Ivanildo e descobrir o que aconteceu com ele e com a casa. O trabalho foi realiza na ocasião da 5a Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, 2005).

Pablo Leon de la Barra, In Search of Jose Ivanildo, Brasília, 2005

Enquete sobre o/nosso entorno (2004-2007)

projeto por Alejandra Riera (Argentina/França) e Cia. Ueinzz (São Paulo)

Baseado na experiência da Companhia Teatral UEINZZ (fundada em 1997 no hospital Dia em São Paulo e atualmente totalmente independente de qualquer contexto clínico), a enquete proposta não é social ou de vocação humanista. A parceria entre Alejandra Riera e a Cia Ueinzz iniciada em 2005, ativou um dispositivo com os atores da companhia de enquete e registro preciso e aberto. Em um mundo sem fora, é uma questão de reativar espaços que estão em fricção com uma normalidade inquietante. é a ideia de “muitos foras” que interessa. Com vídeos-documentos e fotografias (iniciado no âmbito do projeto São Paulo S.A. e realizado independentemente a posteriori com apoio da Documenta 12, Kassel, Alemanha, 2007).